domingo, 29 de abril de 2012

13 de maio de 2012 pode ser histórico.

Está chegando o dia 13 de maio, quando comemoramos a nossa primeira abolição da escravatura, ocorrida em 1888.
No dia 13 de maio de 1996, o presidente FHC, através do Ministério do Trabalho apresentou à sociedade, os coordenadores do recém criado Grupo Móvel de fiscalização (eu, Claudia Márcia, Valderez Monte, Thomaz Jemysson, Vera Jatobá e Ivanira) que seriam responsáveis pelos resgates das vítimas da nova escravidão que se propagou sonsamente no país: A peonagem.
Foram muitas lutas, mudanças de cenário e avanços, graças aos grandes mobilizadores sociais, com destaque para a CPT que empreendeu grandes campanhas e estreita vigilância nas ações de Estado.
Ainda no governo de FHC, ao sentir que arrefecia a luta contra o trabalho escravo, a CPT lançou cartões postais que a população deveria endereçar ao Presidente da República, cobrando posturas, como se vê adiante:
Já no governo Lula, a CPT voltou a cobrar mais empenho das várias esferas de poder, incluindo o Poder Legislativo.
Hoje, no governo da Presidenta Dilma, o entendimento geral é que para acelerar o fim dessa luta que já completa 17 anos, só resta uma medida: o confisco das terras que serviram de palco para escravizar trabalhadores.
E assim marchamos, na expectativa de que o Congresso Nacional seja definitivo para a segunda abolição, inspirando-se na luta de sucesso do parlamentar Joaquim Nabuco e assim, marque mais uma vez o dia 13 de maio como um dia histórico de anúncio de boas novas.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Sua excelência, a criança, escreve à governadora do RN.

Caravana do Nordeste contra o Trabalho Infantil.

Parnamirim, 24 de abril de 2012
Excelentíssima Senhora Governadora Rosalba Ciarlini
            Meu nome é Simone Gonçalves Canela, sou participante do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, em Parnamirim, no bairro de Vale do Sol. Represento todos os colegas do meu Estado que participam desse Programa e que tem suas vidas transformadas todo dia. Quero dizer que toda criança e adolescente deve aprender a conviver com o outro, ter uma infância digna e sempre poder sonhar, ter esperança e nunca precisar trabalhar.
            Sonho que todas as crianças e adolescentes possam ter direito a vida, a brincar, a ser feliz, a sonhar. Mas existem muitas crianças e adolescentes que vivem trabalhando em lixões, trabalham catando latinhas, trabalham nos sinais de trânsito, trabalham carregando sacos pesados nas feiras, trabalham em situações que as impedem de estudar, de ser feliz e de sonhar.
            Aqui no Rio Grande do Norte o trabalho infantil ainda continua, mesmo com tanta coisa que foi feita, ainda é preciso fazer mais para acabar com isso. Precisamos de sua ajuda, Senhora Governadora, precisamos de sua ajuda para poder sonhar...
            Nós crianças temos sonhos: sonhamos que um dia se acabe a exploração sexual; sonhamos que toda criança possa ir a uma escola para ter um futuro melhor; Sonhamos que nenhuma criança precise trabalhar na lavoura; sonhamos que toda criança tenha o amor e a atenção de suas mães; sonhamos que a prostituição infantil e a exploração sexual sejam extintas; sonhamos que nunca mais uma criança possa usar drogas e acima de tudo, sonhamos que tudo isso possa virar realidade.
            Queremos construir um futuro melhor, pois queremos chegar à faculdade, queremos ser: advogados, professores, jornalistas, engenheiros, jogadores de futebol, trabalhar com petróleo e gás e também militares. Queremos ajudar nossos pais e ser o orgulho de nossas famílias.
E para terminar, queremos convidá-la para juntos combater e erradicar o trabalho infantil no nosso Estado transformando nossos sonhos em realidade. Excelentíssima Governadora, Rosalba Ciarlini, sabendo que sonhar é possível, vamos sonhar conosco?
Atenciosamente
Simone Gonçalves Canela

domingo, 22 de abril de 2012

Abusar sexualmente de uma criança é o mesmo que roubar-lhe a alma

Sendo hoje parte de uma família italiana, no seio da qual vive meu queridíssimo neto, aprendi a gostar da sua culinária, dos seus costumes, que tanto influenciam a Nação Brasileira. Claro, caí de amores pela sua música, tendo passado a ouvi-la sempre no percurso casa/trabalho.
Os tios-avós, a avó e a mãe do mio bambino, cantam maravilhosamente bem e sempre me põem em contato com diversos estilos. Mas, um cantor especialmente me atraiu, pela forte emoção que empresta às suas músicas: Renato Zero.
Um dia, em plena Via Costeira, ouvia esse artista e aproveitando a presença de Maria Sorrentino, a avó italiana do meu netinho, pedi-lhe que traduzisse o que ele cantava, porque passava um grande sofrimento naquela interpretação da música "Qualcuno".  Como não entendia ainda muito bem o Italiano, achava que ele falava de um amor perdido.
Maria então me explicou o enredo da música, e fiquei estarrecida. Tratava-se da narração do ataque de um pedófilo, exteriorizado por uma indefesa vítima dessa aberração humana.
Inimaginável! Então eu cantava a caminho do meu trabalho, a história de um abuso sexual sofrido por um menininho! Logo eu, que combato a exploração comercial sexual de crianças e adolescentes e também o abuso sexual mesmo não comercial dessa faixa etária.
Dio!
A partir dessa consciência, passei a perder um pouquinho da minha alma também, porque o intérprete nos leva a um mergulho num  “difícil momento do passado” vivido e revivido por milhões de crianças que têm que suportar um adulto no seu corpo em desenvolvimento. Imagine!
Se nem trabalhar em 90 tipos de atividades a criança/adolescente pode, porque aqui no Brasil são consideradas Piores Formas de Trabalho Infantil, vedadas a todos que tenham menos de 18 anos, imagine se poderia, com o aval da Justiça, trabalhar no pior dentre o pior, que é a exploração sexual comercial.
Piorou ainda mais minha impressão sobre aquela magistrada, que absolveu um pedófilo, porque ele pagava a “meninas profissionais do sexo”, portanto, na sua deturpada avaliação, seria excludente de criminalidade.
Ignorância sobre a legislação e tratados internacionais ratificados pelo Brasil? Ignorância sobre os Direitos Humanos, que são universais e indivisíveis? Inexplicável. Lamentável, moralmente condenável.
Ah meu Deus! O menininho da música ganhou uma pipa vermelha, mas perdeu a inocência e a alma. O recebimento de alguma vantagem tirou-lhe a condição de criança? Não! A criança integral que existia até então, foi violentada e no rastro dela, toda a humanidade.
Dio! Alguém devolva a alma dessa magistrada!
Alguém divulgue o vídeo abaixo!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

quarta-feira, 18 de abril de 2012



Abril vermelho.


Ontem, vendo as notícias sobre a chacina de Eldorado dos Carajás, tão marcante no cenário nacional, relembrei meu batismo em terras do Pará, no ano de 1996, ainda no começo do grupo móvel, quando pus meus pés naquele cenário sinistro. Integrava a equipe da colega Claudia Márcia.

Logo ao chegar à Marabá fiquei impressionada com o outdoor que dava as boas vindas aos visitantes. Dizia: Bem vindo a Marabá. Abaixo, quem dava as boas vindas era a Funerária São Francisco. Geralmente, as boas vindas são dadas por hotéis, restaurantes ou outro estabelecimento comercial. Pensei então:

- Meu Deus, eu não quero me hospedar eternamente nesta cidade!

Em seguida, fomos para Xinguara, passando por Eldorado dos Carajás. O comboio parou na estrada e então descobri que estávamos no local onde foram chacinados naquele mesmo ano, os 19 sem terras.

Os policiais nos explicaram como aconteceu, como os trabalhadores ficaram encurralados e mortos. Visão horrível, que só piorava minha impressão do outdoor. O chão era fofo e quente. Meu passeio macabro no meio daquelas cruzes, cheias de velas derretidas, me fizeram entender que estávamos partindo de ameaças veladas para o risco concreto de morte.

O Pará cheirava a morte e impunidade. Tomamos conhecimento sobre a lista negra dos marcados para morrer. Entre eles, o emblemático Padre francês da CPT de Xinguara, Frei Henry de Roziers, que tive a honra de conhecer, amenizando a péssima impressão que me causou aquele estado.

Após entender o panorama da violência do campo - coisa que não fazia parte da minha consciência sobre o Brasil - saímos de madrugada, ainda muito escuro, para flagrarmos um gato perigosíssimo, que batia nos trabalhadores com “panadas” (forma de surrar com o lado plano do facão, que deriva da expressão “planada”).

Teríamos que abordá-lo durante seu sono, porque estava no meio de um desmatamento e portava armas. Ao entrarmos na trilha para o alojamento do gato, fomos surpreendidos por uma densa fumaça de uma queimada. Estava nervosa com a situação de estarmos vulneráveis no campo do inimigo, que poderia ver muito bem nossos faróis, enquanto ele estava encoberto pela escuridão. Foi o momento de maior temor em toda a minha vida móvel.

Paramos à margem da estrada, para estirarmos as pernas, já que as distâncias no Pará são sempre enormes. Faltou fôlego. A fumaça da queimada estava baixa, e o nosso colega médico nos disse:

- Entrem todos nos carros, porque se faltar oxigênio, não vou poder fazer nada por vocês.

E assim, ficamos sozinhos dentro dos carros, no meio da escuridão, enquanto os policiais federais subiram numa camioneta e foram fazer a abordagem ao tal “gato”. Ouvimos os gritos da madeira queimando, uma coisa fantasmagórica.

Quando entramos no acampamento, já amanhecia o dia e vimos a devastação da terra queimada, assim como as indecentes condições dos trabalhadores. Uma coisa incrível.
Alguns trabalhadores dormiam a céu aberto, em redes penduradas nos galhos de árvores ainda de pé. Havia um auxiliar do “gato”, que apelidaram de vampiro, porque tinha apenas os dois caninos. Sua figura combinava com aquele cenário tétrico.

Depois de todos os procedimentos, fomos emitir as Carteiras de Trabalho de todo o grupo e só então, descobrimos que havíamos esquecido a cola para afixar as fotos nas CTPS (foi levado um fotógrafo). Impasse. Sem as fotos coladas e carimbadas com nossa assinatura, não seriam válidas.

Vendo nossa aflição, um trabalhador nos disse:

- Se quiserem, nós fazemos a cola pra vocês.

- Como? Perguntamos.

- Nós fazemos uma cola que prega até solado de bota.

Aceitamos e fomos ver a incrível fórmula: uma bacia com gasolina e uma embalagem de isopor. Quebraram os pedaços da embalagem dentro da bacia e mexeram com um graveto. Pronto! O combustível engoliu em segundos o isopor e ganhamos uma cola cremosa. Assim, as CTPS foram formalizadas, embora o cheiro forte da gasolina tenha nos causado dores de cabeça.

Foi um batismo de fogo, literalmente, minha primeira visita ao Pará. Em um único dia, rodamos mais de 70 quilômetros sem vermos o sol, encoberto que estava por nuvens de fumaça.


Tempo das incontroladas queimadas, dos gigantescos crimes ambientais e dos perversos crimes contra os direitos humanos.

terça-feira, 17 de abril de 2012

" FIGLIO " RENATO ZERO


Depois de ver durante quatro dias a exploração do trabalho de dezenas de crianças no meu estado, posto a bela música de Renato Zero .

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Posto este antigo cartaz de uma campanha para o Mercosul contra o trabalho infantil, porque utiliza uma bricadeira super popular e ao alcance de qualquer criança, que é o PIQUE-COLA, conhecida aqui no Nordeste como brincadeira de TICA. Que bom seria podermos sair por aí "ticando" as crianças trabalhadoras e dizer-lhes:




- Tá livre!